Fonte: Folha PE 24.08.2026
Com o crescimento exponencial do setor, o Brasil já é apontado como o quarto maior mercado de energia solar no mundo, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia.
A substituição progressiva de combustíveis fósseis por fontes limpas e renováveis de energia é condição indispensável para mitigar os alarmantes efeitos das mudanças climáticas que afetam o planeta. Em um cenário de urgência ambiental, a energia solar tem prosperado no mundo todo, sendo uma forte aliada na redução das emissões de gases de efeito estufa e na descarbonização da matriz energética global.
O Brasil vem despontando como um território fértil para o crescimento da energia solar. Segundo o último Balanço Energético Nacional (BEN) de 2025, a geração solar fotovoltaica se destacou como a que mais avançou no país. O aumento foi 24,7% em relação ao ano anterior, atingindo 88,1 TWh. Já sua capacidade instalada alcançou 64.793 MW, o que representa uma expansão de 33,7%, na comparação com 2024.
O crescimento do setor reforça o caráter limpo e renovável da matriz elétrica brasileira. Segundo o balanço produzido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) do governo federal, 86,8% da energia elétrica produzida no Brasil é proveniente de fontes renováveis. O segmento fotovoltaico é responsável por 11,4% dessa oferta interna.
Esses números colocam o Brasil em posição de destaque global. O relatório Global Market Outlook for Solar Power 2025-2029, divulgado pela SolarPower Europe, aponta o país como quarto maior mercado de energia solar no mundo, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia.
Avanços
Diferentes fatores impulsionaram o crescimento exponencial experimentado pela energia solar no Brasil nos últimos anos. Emerson Torres, coordenador do curso de Engenharia de Energia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), aponta as características climáticas e geográficas do país como um desses motivadores.
“Na última década, saímos de uma participação incipiente da energia solar para o posto de segunda fonte de geração de energia elétrica no país. Parte desse avanço nós devemos aos recursos naturais, como a irradiação solar abundante e a grande extensão territorial, que dão ao Brasil uma vantagem em relação aos outros países na produção de energia fotovoltaica”, afirma o especialista.
Ainda de acordo com o professor da UFPE, o barateamento dos custos de produção - impulsionado pela alta oferta de equipamentos para a montagem de um sistema fotovoltaico - também ajudou a alavancar o setor. Um levantamento realizado pela Solfácil, startup que atua no segmento, instalar energia solar no Brasil pode ser até sete vezes mais barato do que nos Estados Unidos.
A regulamentação iniciada em 2012 com a Resolução Normativa 482 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é vista como histórica, permitindo aos consumidores residenciais e comerciais gerarem sua própria energia e abaterem o excedente da conta de luz.
“Essa política pública, que depois virou a Lei nº 14.300/2022 [instituindo o Marco Legal da Microgeração e Minigeração Distribuída no Brasil], é muito importante para desenvolver qualquer tipo de projeto de grande impacto populacional. A partir do momento que isso estava regularizado, veio um conjunto de incentivos fiscais que também foi crucial para estimular a adoção desse tipo de geração de energia”, comenta Rudinei Miranda, presidente da Associação Pernambucana de Energias Renováveis (Aperenováveis) e da Associação Nacional das Entidades de Energias Renováveis (Aner).
Diversificação
As hidrelétricas ainda dominam a produção de energia elétrica nacional, fornecendo 51,2% do que é ofertado internamente. A limitação da infraestrutura hídrica e a necessidade de atender ao crescimento da demanda impulsionam a busca por outras fontes de energia. Em períodos de maior estresse hídrico no País, o incremento da geração eólica e solar fotovoltaica contribuiu para a diversificação da matriz elétrica, garantindo não só a redução de emissões de poluentes, mas também segurança energética.
Luzer Oliveira, coordenador estadual da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) em Pernambuco, aponta os diferentes benefícios do uso de energia solar. O principal deles é o menor impacto ambiental e pegada de carbono em comparação com outras fontes de energia, como termelétricas a diesel ou até mesmo hidrelétricas, que podem gerar metano. Dados da Absolar demonstram que o uso de energia solar já evitou que 115,7 milhões de toneladas de CO2 fossem emitidas.
Outro atrativo é o bom retorno financeiro obtido com o investimento em energia solar, especialmente para a geração distribuída [quando a eletricidade é gerada no próprio local de consumo ou próximo a ele]. No caso da produção domiciliar, o chamado payback caiu para até quatro anos, dependendo do sistema de armazenamento, de acordo com Rudinei Miranda.
A instalação de energia solar fotovoltaica também tem movimentado a economia brasileira com a geração dos novos postos de trabalho. Segundo a Absolar, o setor foi responsável por criar mais de 2,1 milhões de empregos desde 2012. “Hoje, 97,5% de toda a geração de energia distribuída que se tem no Brasil é por energia solar fotovoltaica. A estimativa é de que 20 a 30 empregos sejam gerados por cada megawatt instalado. Na universidade, formamos profissionais capacitados, que conseguem boa empregabilidade ou até mesmo empreender na área de energia”, destaca Emerson Torres.
Entraves
Apesar do cenário promissor, especialistas apontam entraves que ameaçam um crescimento ainda maior da energia solar no Brasil. O ponto que mais preocupa empresários do segmento é o chamado curtailment, redução ou o corte intencional na geração de energia determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), quando a energia produzida excede a capacidade de transmissão ou a demanda da rede.
Embora a medida técnica seja necessária para garantir a estabilidade e a segurança elétrica, Luzer Oliveira chama atenção para os prejuízos amargados por empresas do setor diante dos cortes de produção cada vez mais recorrentes. Para ele, a infraestrutura elétrica do País não acompanhou o ritmo de crescimento da geração solar, causando dificuldades na transmissão do excedente de energia para outras regiões.
“Temos o maior potencial energético do mundo em geração limpa. Com uma melhor distribuição e transmissão, sanando esse problema dos cancelamentos, conseguiríamos atrair novos investidores para o setor, porque eles precisam de previsibilidade e segurança. Queremos que o governo e a população olhem para a energia solar como algo benéfico e não um vilão”, pede o representante da Absolar.
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