Fonte: O Otimista 20.11.2025
Na COP30, a meta lançada pelo setor de energia solar é quadruplicar o número de casas com painéis solares até 2030; hoje são 75 milhões de acordo com as contas da indústria
Alguém, lá do fundo do ambiente, avisa: é hora de sair da fila de drinks ao lado da piscina e suspender o networking. A dona da festa, já no palco, quer falar algumas palavras.
Sonia Dunlop, a CEO do Global Solar Council, associação que reúne quase toda a indústria de energia solar do mundo, pega o microfone. Enquanto caminha no palco, ela olha para a plateia e discursa de forma incisiva sobre como a energia solar ajuda a todos. A energia solar, segundo ela, é a solução.
A ocasião é uma festa em um sítio de Ananindeua, nos arredores de Belém, na noite da primeira sexta-feira da COP30. Motivos para comemorar não faltam: a indústria da energia solar chegou a esta cúpula climática da ONU como uma das mais poderosas da conferência, presente em discussões durante todo o evento, inclusive de delegações oficiais.
A festa reuniu funcionários de empresas e associações de todo o mundo, para comemorar os dez anos do GSC. Nenhum luguar melhor do que no país que viu placas solares se espalharem rapidamente por telhados e fazendas, inclusive chacoalhando os lobbies do setor de energia.
O tom do encontro expressa bem o otimismo do segmento. Em dado momento, Bruce Douglas, o presidente da Global Renewable Alliance, puxou em sotaque inglês, com os punhos erguidos: "solar, solar, solar, solar". E a plateia, de prontidão, respondeu: "solar, solar, solar, solar". A cerimônia se encerrou com um artista fazendo um cover de Beatles. A música? Uma versão emocionada de "Here Comes de Sun" (aí vem o sol).
E pelo visto está vindo aí mesmo. No ano passado, segundo o próprio GSC, a indústria investiu US$ 500 bilhões (R$ 2,6 trilhões) por ano em adição de capacidade, valor que deve ser um pouco maior neste ano. Se em 2015 o mundo instalou apenas 56 GW (gigawatts) de energia solar, neste ano são esperados quase 700 GW de placas solares em telhados ou alocadas sobre o chão de grandes fazendas.
E o volume de novas instalações vai continuar subindo ao menos até 2035, inclusive por uma conquista do setor nos ambientes de negociações da COP. Na conferência de Dubai, em 2023, mais de cem países se comprometeram a triplicar a capacidade instalada de eletricidade limpa, espaço no qual a indústria solar dita as regras. De acordo com a AIE (Agência Internacional de Energia), 80% do acréscimo de energia renovável no mundo até 2030 virá de placas solares.
Na COP30, a meta lançada pelo setor também é ambiciosa: quadruplicar o número de casas com painéis solares até 2030. Hoje são 75 milhões de acordo com as contas da indústria.
E o objetivo é desafiador, visto que hoje o setor cresce em torno de 3% ao ano, contra 30% de anos anteriores. "Mercados maduros estão atingindo altos níveis de penetração solar, o que introduz desafios como corte de geração e preços diurnos baixos ou até negativos", diz Lara Hayim, diretora de pesquisa de energia solar da BNEF, braço da Bloomberg que analisa dados da indústria da transição energética.
A China é o grande motor desse setor. Segundo a BNEF, o país é responsável por 60% da nova capacidade instalada de energia solar no mundo a proporção deve cair ao longo dos anos, mas espera-se que continue relevante, sobretudo quando acoplada a baterias capazes de armazenar a energia gerada em períodos de excesso de oferta.
Na festa do setor, aliás, os chineses eram representados por Li Zhenguo, presidente da Longi, uma das maiores fabricantes de painéis solares do mundo.
O Brasil também é um ator importante nesse setor. O país foi no ano passado o quinto que mais adicionou placas solares à sua rede elétrica, quase 20 GW. Já neste ano a expectativa é de queda de 16 GW, motivada pelos cortes de energia que atrapalham empresas com operações no nordeste brasileiro e no norte de Minas Gerais.
O maior crescimento nos próximos anos, proporcionalmente, deve vir em grande maioria da Índia e da Arábia Saudita, que veem a demanda por energia limpa disparar, ainda que na última a fatia solar ainda seja inferior a 5%.
Mas só a chegada em peso da energia solar entre os sauditas, historicamente atrelados à indústria de petróleo e gás, aponta a influência política que a indústria solar conquistou nos últimos anos.
No Brasil, por exemplo, o setor conseguiu nas últimas semanas desconfigurar no Congresso uma medida provisória que reformava o setor elétrico do país e cobrava de novos donos de placas solares, hoje isentos de encargos e taxas do sistema, R$ 20 por cada 100 KWh injetado na rede. Na mesma discussão, o setor conseguiu incluir um dispositivo que prevê a necessidade de o governo indenizar empresas de energia renovável que sofrem cortes em sua geração devido ao excesso de oferta.
A influência do setor também dá as caras na Europa, onde carros elétricos e hidrogênio verde soluções que dependem de eletricidade renovável são mais aceitos do que biocombustíveis ou energia nuclear. Já na China, que desponta como a maior produtora de tecnologias do setor, a agenda é estratégica para o PIB do país.
Mas o setor ainda espera alcançar a influência política da indústria de óleo e gás, cujo faturamento hoje está na casa dos trilhões de dólares. "As sete maiores empresas de energia solar agora estão produzindo mais energia do que as sete maiores empresas de petróleo e gás, mas o problema é que não estamos nem perto em termos de poder político", afirma Dunlop à reportagem.
A GSC ainda não divulgou a quantidade de credenciados na COP30 relacionados à indústria solar. Na indústria de óleo e gás foram 1.600, segundo a organização Kick Big Polluters Out.
"Sinto que deveríamos ser [o setor mais poderoso da COP], mas eu não diria que somos. Acho que, como indústria de renováveis, estamos agora ganhando influência, mas ainda nada comparado a petróleo, gás ou nuclear", diz Dunlop . "O que realmente mudou é que quase todos os governos, exceto os EUA, agora realmente entendem que energia solar e baterias são a maneira de entregar competitividade econômica e desenvolvimento sustentável em seu país." (FolhaPress)
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